Planalto da Caotinha: vender o terreno e apagar a História
Planalto da Caotinha: vender o terreno e apagar a História
Artigo de opinião por: Jorge Nunes
Planalto da Caotinha: não podemos vender o terreno e apagar a História
O património arqueológico, a paisagem e o potencial turístico da Caotinha exigem estudo e preservação antes de qualquer loteamento. A receita imediata não pode comprometer aquilo que Benguela ainda tem por conhecer e valorizar.
Há decisões sobre o território cujas consequências ultrapassam largamente o mandato de quem as toma. Lotear uma zona com interesse arqueológico, abrir acessos e permitir construções pode destruir, em poucos dias, testemunhos que atravessaram milhares de anos e que nunca mais poderão ser recuperados.
É com esta preocupação que devemos olhar para o planalto da Caotinha e para as informações sobre a sua divisão em terrenos para venda. Antes de se desenharem parcelas, importa conhecer o que existe no solo, o que permanece por estudar e o que Benguela poderá perder.
O valor deste território vai muito além da vista sobre o mar. Os vestígios de pedra lascada e as ocorrências fósseis ali assinaladas justificam uma avaliação científica cuidada. Não podem ser tratados como pormenores sem importância perante a possibilidade de construir.
A relevância pré-histórica do litoral de Benguela está documentada. Um estudo científico publicado em 2023 identifica Dungo, Mormolo, Sombreiro, Macaca e Ponta das Vacas entre os locais que testemunham antigas ocupações humanas nos terraços costeiros da província. Estamos perante uma região que contribui para compreender a relação dos primeiros grupos humanos com os ambientes do litoral.
O Paleolítico, frequentemente designado por Idade da Pedra Lascada, deixou instrumentos e vestígios do trabalho da pedra que ajudam a estudar comportamentos, técnicas e formas de ocupação do território. Os fósseis, por sua vez, permitem investigar formas de vida e ambientes do passado. São patrimónios distintos, mas ambos exigem identificação, documentação e protecção.
Uma máquina pode destruir aquilo que a ciência ainda não teve oportunidade de estudar
O problema não se resolve recolhendo algumas pedras ou fósseis antes de começar uma obra. A posição dos materiais, as camadas em que se encontram e a relação entre os diferentes vestígios fazem parte da informação científica. Uma peça guardada pode sobreviver; o contexto que permite compreendê-la pode perder-se para sempre.
Por isso, preservar significa também manter áreas disponíveis para investigações futuras. Nem tudo tem de ser escavado imediatamente. Novas perguntas e novos métodos poderão permitir, amanhã, conhecer melhor aquilo que hoje ainda não conseguimos interpretar.
Existe trabalho científico que deve ser considerado nas decisões sobre este litoral. O Museu Nacional de Arqueologia, em Benguela, participa em investigação com parceiros internacionais. A Missão Pré-Histórica Franco-Angolana dedica-se, desde 2023, ao estudo dos primeiros hominínios nos espaços costeiros da província, incluindo escavações de oficinas de talhe da pedra e de locais fossilíferos. Esta continuidade de investigação reforça a necessidade de ouvir os especialistas antes de transformar o território.
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Não devemos confundir a localização de cada estação arqueológica com a totalidade do planalto, nem atribuir a todas as parcelas a mesma importância sem levantamento. É precisamente por isso que se exige estudar, delimitar e planear antes de lotear e construir.
O exemplo de Bentiaba, no Namibe, ajuda a compreender o que está em causa. A investigação desenvolvida no âmbito do Projecto PaleoAngola revelou uma extraordinária riqueza paleontológica, com fósseis de mosassauros, plesiossauros, tartarugas e outros animais. Bentiaba destaca-se sobretudo pelos seus antigos ecossistemas marinhos; mosassauros e plesiossauros eram répteis marinhos, não dinossauros. Esse património tem sustentado investigação internacional, formação e divulgação científica.
A lição para Benguela é clara: o conhecimento pode dar valor a um território e criar razões para o visitar. Mas essa oportunidade depende da conservação dos recursos que a tornam possível.
Na Caotinha, a dimensão científica pode articular-se com caminhadas, trilhos interpretativos, educação ambiental e ecoturismo. O Sombreiro e os miradouros da zona podem integrar percursos que aproximem os visitantes da paisagem e da história natural e humana deste litoral.
Com planeamento, guias preparados e regras de visitação que protejam os locais sensíveis, esta oferta poderá beneficiar as comunidades, os operadores turísticos, a restauração e o alojamento. É uma possibilidade de gerar actividade continuada, que merece ser avaliada antes de se optar pela receita pontual da venda de terrenos.
A Caotinha não deve transformar-se numa manta de retalhos de lotes, muros e construções, sem uma visão para o conjunto
À Administração Municipal dos Navegantes cabe esclarecer as informações sobre o loteamento: qual é a área abrangida, que plano o sustenta, que pareceres foram emitidos e de que forma foram considerados os valores arqueológicos, paleontológicos e paisagísticos. O Museu Nacional de Arqueologia foi consultado? As áreas de interesse científico estão identificadas e salvaguardadas? Os acessos aos percursos e miradouros continuarão disponíveis?
O Farol do Lobito, é um farol angolano localizado no cimo das escarpas no lado este da entrada do porto e baía de Lobito, em frente à ponta da restinga, a norte da cidade de mesmo nome, província de Benguela.
Situado junto à estrada do Dombe Grande, dista cerca de 30 km da cidade de Benguela, abrange uma área de 150 Km2 maioritariamente constituída por uma planície elevada rodeada por montanhas mais ou menos escarpadas e com altitudes variando entre os 50 m e
Os mangais são vistos como o berçário de espécies marinhas, bacias de retenção das águas pluviais, protegem a orla marítima da erosão e inundações, entre outras funções.
A Casa do primeiro Administrador da Catumbela, frequentemente referida em fontes antigas como “residência do chefe do concelho”, ergue-se no Morro da Catumbela, em ponto estratégico sobre o vale e o curso do rio.
O Museu Etnográfico do Lobito, localizado no município com o mesmo nome, província de Benguela, é o retrato fiel da diversidade etno cultural dos povos de Angola, como prova a composição do seu acervo museológico.
O museu é uma instituição de carácter científico, de investigação, de formação de quadros, de conservação e de informação arqueológica.
Estas perguntas exigem respostas públicas. A ausência de pareceres divulgados não prova que eles não existam, mas impede a população de avaliar os fundamentos da decisão.
Se não houve avaliação adequada, defendo que o processo seja suspenso nas áreas potencialmente afectadas até serem realizados os levantamentos necessários. E, se os estudos existem, devem ser apresentados, juntamente com as medidas de protecção previstas.
A necessidade de arrecadar dinheiro não pode substituir uma política de ordenamento. Uma administração deve ser avaliada também pela capacidade de preservar recursos, evitar danos irreversíveis e criar oportunidades duradouras.
Benguela precisa de investimento e de desenvolvimento. Precisa, igualmente, de reconhecer que há terrenos cujo maior valor ainda está por descobrir.
Antes de vender a Caotinha em parcelas, é preciso conhecer e proteger aquilo que nenhuma receita poderá devolver depois de destruído.