Lobito - A falta de manutenção e a brisa marinha carregada de salitre, há mais de dois anos, estão na base do avançado estado de degradação do barco "Zaire", um dos principais monumentos históricos da cidade do Lobito, província de Benguela.
O barco está localizado no Bairro da Restinga, zona privilegiada do Lobito, onde a baía junta-se ao mar alto, transformando-se numa atracção turística muito procurada por estudantes, governantes, turistas e pessoas singulares, tanto nacionais como estrangeiras.
O estado actual do barco é preocupante na medida em que o seu casco já está completamente coberto de ferrugem e fissuras e consequentemente a apodrecer desde a proa a popa e de bombordo (lado direiro) a estibordo (lado esquerdo).
Sob responsabilidade do Museu de Etnografia da cidade ferro-portuária, o barco “Zaire” tem como mais alta referência o transporte do ex-Presidente José Eduardo dos Santos, acompanhado de outros nacionalistas, no dia 07 de Novembro de 1961, com destino ao Congo Léopoldville (actual Congo Democrático), no âmbito da luta armada.
De acordo com arquivos do Museu, os sete passageiros que viajavam clandestinamente naquele barco através do rio Zaire, o mesmo nome com o qual foi baptizado, chegaram ao destino no dia 14 de Novembro, tendo passado coincidentemente sete dias a navegar.
O administrador do Lobito, Nelson Joaquim da Conceição, questionado sobre a manutenção, disse que existem contactos desde 2017, tendo recebido um orçamento (não especificado) da Lobinave, estaleiro naval do Lobito, para a recuperação, que “infelizmente está muito aquém da capacidade da Administração”.
A outra barreira encontrada é o facto da referida despesa não ter sido inscrita nos orçamentos de 2017, 2018 e 2019, situação que levou a Administração local a recorrer ao Governo Provincial de Benguela, sem ter recebido nenhuma resposta até ao momento.
Nelson da Conceição adiantou que a última esperança reside no facto de a Fundação Sagrada Esperança ter prometido o apoio financeiro na altura dos contactos e chegou a enviar uma equipa ao Lobito para fazer levantamentos e ter o orçamento em sua posse.
A única acção prática da Administração até ao momento foi vedar o acesso ao jardim e fazer a manutenção desta parte, dentro dos recursos possíveis para manter a imagem da zona.História do barco
Dados bibliográficos indicam que o barco “Zaire” foi utilizado no transporte do ex-Presidente José Eduardo dos Santos e mais seis companheiros, sem mencioná-los, com destino ao Congo Léopoldville, actual Congo Democrático, para integrarem o Exército de Libertação de Angola (ELPA), antigo braço armado do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA).
Após a independência, o barco foi recuperado em Luanda e transportado para a cidade do Lobito, sendo colocado numa zona turística para servir como monumento histórico.
Em relação a este assunto, o sociólogo Adilson Savite afirmou que se trata de uma “relíquia cultural” que a juventude deve consultar para saber sobre história da luta armada de libertação de Angola.Lembrou que naquela altura a guerra contra o colonialismo estava no auge e alguma juventude galvanizada, sensibilizava outros compatriotas para aderirem a causa nacional.
Neste quesito, destacou igualmente o papel de outros movimentos de libertação com grande influência, como a União dos Povos de Angola (UPA), que mais tarde transformou-se na Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA).
Aproveitou para fazer um apelo a juventude no sentido de respeitar e valorizar os símbolos nacionais em memória daqueles que deram as suas vidas pela causa da independência de Angola.
A juventude, de uma maneira geral, não domina a importância do barco “Zaire” do ponto de vista histórico, devido a pouca informação veiculada, principalmente pelo Museu de Etnografia, seu órgão de tutela.
Muitos jovens desconhecem o significado daquele monumento para a história de Angola, pensando apenas que é um símbolo turístico que serve para tirar fotografias singulares ou em grupos (casamentos e outros eventos) e postar nas redes sociais ou guardar em álbuns em casa.
Um inquérito feito a um grupo de 10 jovens, apenas José Farinha e Jacinto Cassumbinha, ambos com o ensino médio concluído, sabiam vagamente que o barco “Zaire” foi utilizado para o transporte de nacionalistas, entre os quais o ex-Presidente José Eduardo dos Santos, para o Congo Léopoldville.Inaugurado no dia 15 de Novembro de 2000, o barco “Zaire” funcionou como biblioteca até meados de Março de 2017, com cinco funcionárias, entre bibliotecárias e guias para os visitantes. Daquela data até ao momento, encontra-se “semi-abandonado” por falta de manutenção e outros cuidados merecidos por um símbolo nacional, que é património de todos os angolanos.