A antiga Companhia de Celulose e Papel de Angola, localizada no Alto Catumbela, município da Ganda, é um dos mais importantes marcos industriais e históricos da província de Benguela.
Muito mais do que uma simples fábrica, este complexo representa uma parte fundamental da memória económica e social de Angola, especialmente do período de grande desenvolvimento industrial vivido antes da independência.
Criada inicialmente com o nome de “Companhia de Celulose do Ultramar Português”, a unidade começou a produzir pasta de papel em 1961, aproveitando a proximidade do rio Catumbela e da linha do Caminho-de-Ferro de Benguela, fatores essenciais para o transporte de matérias-primas e produtos industriais.
Durante décadas, a companhia foi considerada uma das maiores indústrias do género em África.
O complexo industrial transformou completamente a região do Alto Catumbela, impulsionando o crescimento populacional, a criação de empregos e o desenvolvimento de infraestruturas sociais. Muitos trabalhadores viviam numa verdadeira vila industrial organizada em torno da fábrica, com habitações, serviços e áreas de apoio à comunidade.
A fábrica dependia fortemente das vastas plantações de eucaliptos e pinheiros existentes nos perímetros florestais da região.
Estas áreas eram fundamentais para a produção da celulose utilizada no fabrico do papel, tornando a Ganda num importante centro florestal e industrial de Angola. Segundo relatos históricos, milhares de trabalhadores estiveram ligados direta ou indiretamente à companhia ao longo dos anos.
Contudo, a guerra civil angolana teve um impacto devastador sobre a empresa. Em 1983, parte das instalações foi destruída, provocando a paralisação total da produção. Posteriormente, em agosto de 2004, um grande incêndio destruiu o que ainda restava da infraestrutura industrial, encerrando praticamente qualquer possibilidade imediata de recuperação da antiga fábrica.
Apesar do abandono e da degradação provocados pelo tempo, o local continua a despertar interesse histórico, turístico e arquitetónico. As ruínas da companhia tornaram-se um símbolo silencioso da antiga força industrial da região e atraem visitantes interessados em património industrial, fotografia, história económica e memória colonial angolana.
Além do seu valor histórico, o espaço possui também relevância cultural e emocional para muitas famílias da Ganda, já que várias gerações trabalharam na empresa e dependiam dela para o sustento. Até hoje, muitos antigos trabalhadores e moradores mantêm viva a memória dos tempos em que a companhia era o principal motor económico da região.
Nos últimos anos, surgiram diferentes iniciativas e intenções governamentais para revitalizar o sector da celulose e recuperar o potencial industrial da área. Estudos de viabilidade e propostas de investimento nacionais e estrangeiras têm sido anunciados para reativar a produção de papel e aproveitar novamente os recursos florestais da região.
Hoje, a Companhia de Celulose e Papel de Angola permanece como um dos mais emblemáticos testemunhos da industrialização angolana no século XX (20) um local onde história, memória e património industrial se encontram no coração da província de Benguela.