Ricardo Guerra, mentor da marca, Caxaramba, acredita que com humildade e com o conhecimento pode-se produzir bebidas espirituosas de qualidade em Angola e tem a convicção que está a fazer algo diferente de tudo o resto que se faz neste sector a nível nacional , podendo inlcusive internacionalizar a marca.
POR: KARINNE MANITA | FOTOGRAFIAS NJOI FONTES
A Caxaramba é uma empresa de bebidas destiladas. Como começou o projecto?
O projecto é um sonho meu, o de fazer em torno de um produto nacional adormecido que é cana do açúcar, matéria-prima existente no território nacional, bebidas espirituosas de qualida- de que têm enorme potencial de envelhecimento, criar stocks com blends de aguardente envelhecendo e promovendo o estágio em madeira. Isto aconte- ce à semelhança do que se faz noutros países do mundo, como o rum em Cuba, nos Barbados, a cachaça no Brasil, os cognacs em França, os xerezes em Espanha e o vinho do Porto em Portugal. Com o passar dos anos acredito que o envelhecimento em barrica e a combinação de todos os compostos fenólicos vão fazer magia, ganhar qualidade e tirar todo o potencial com envelheci- mento que a natureza já nos oferece. O tempo obriga-nos a ter a coragem e a ganhar a capacida- de de saber esperar pelo momen- to certo para vender. A Caxaram- ba é uma criança que está a nascer - por isso apenas vendemos 1/3 do que temos em stock. A protecção e o melhoramento da qualidade do nosso produto é a nossa regra básica, mas também a maior e a mais importante.
Esta cachaça é já uma cultura em Angola?
Uma marca não se cria apenas com uma ideia de um dia para o outro - é todo um caminho que estamos a começar. A ideia é criar em torno da cultura da cana-de- açúcar uma marca de referência sempre associada à qualidade, que possa competir directamente com a enorme quantidade de bebidas destiladas das grandes marcas que são importadas para Angola todos os anos. Apesar de nos confrontarmos todos os dias com grandes dificuldades (sendo a primeira delas lutar contra o preconceito de provar uma bebida destilada nacional) pensamos que com as poucas armas que temos (temos uma matéria prima de grande poten- cial apesar de escassa), existe também todo um país com grandes potencialidades para termos uma agricultura que, futuramente, se torne industriali- zada em torno da cultura da cana. A nível climatérico, solos, exposição e irrigação, num país tão extenso como Angola, não é fácil encontrar no mundo num mesmo País, tantas localizações favoráveis para a produção de uma mesma cultura sendo ainda esta uma cultura bastante resistente a pragas e doenças fitossanitárias. Temos o know- how, o horizonte, o amor, o sonho em criar uma identidade em torno de uma cultura de um produto e de uma marca. Acredi- to que a Caxaramba, mais do que uma marca, é um tipo de bebida. Se calhar, a bebida com a qualida- de e imagem bem representativa de Angola, do que é nosso, da nossa terra, que faltava ao País para poder importar menos álcool e consumir mais o que é feito em Angola, sem dúvida nenhuma. Mas com a noção que ainda estamos ainda no início da caminhada. Depois veio o Eureka e fazer o registo da marca Caxaramba no IAPI, termo muito utilizado pelo povo para dizer bebida quente ou de grande teor alcoólico feito a partir da cana. Em São Tomé quer dizer precisa- mente aguardente de cana.
Qual é o posicionamento que pretendem atribuir à marca? Apesar de querermos sempre alcançar a melhor qualidade, não pretendemos ser uma bebida apenas das elites. Queremos atingir as várias e diferentes mesas e classes sociais. O nosso produto, nesta fase jovem, é sem dúvida alguma uma bebida de apoio aos cocktails, com a sua versatilidade, complexidade e processo produtivo, que é capaz de criar vários tipos de cocktails diferentes – a restauração, festas e moderna distribuição. E, obviamente, não podemos descurar o mercado Informal, onde também de tudo se vende e onde as grandes marcas estão presentes. Também temos no horizonte a exportação – temos produto, e este é sem dúvida o grande objectivo para 2019. Num país onde, sem hipocrisia, o povo gosta de beber e prioriza a bebida, é importante, nós produtores fazermos um produto com mais qualidade, de forma a proteger o consumidor e a transmitir uma mensagem positiva: explicar o que se bebe e como se deve beber, e trazer o lado mais verde e mais harmo- nioso para o sector das bebidas locais. Queremos atingir os mercados que até agora nos pareciam inatingíveis, pois eram ocupados pelas grandes marcas de bebidas internacionais que têm a capacidade económica de tornar o produto atractivo, com grandes campanhas de marketing e imagem tendo grandes budgets financeiros para promoção e divulgação do produto. Acreditamos que não é só com isso que podemos ser especiais.
Que directrizes de gestão seguem?
As dos bons exemplos, olhar para cima e não para o lado. Não nos desculparmos com as fragilida- des e debilidades de um país que é jovem e que sofre de crises de crescimento como tantos outros. Tentar dar as melhores condi- ções aos nossos colaboradores dentro de uma conjuntura que não é favorável. Formar pessoas desde a oficina passando pela parte produtiva até à parte promocional e de comunicação de produto.
Quem são os vossos maiores parceiros?
Ao nível da distribuição trabalha- mos com a empresa SOIPA Bebidas que tem feito um trabalho muito positivo de fazer chegar o nosso produto às pessoas de uma forma que nós, Caxaramba, achamos ser a mais correcta e a que nos poderá dar mais frutos no futuro e termos a mão sobre o nosso produto. Temos orgulho em já termos efectuado a nível da província de Benguela com a Coca-Cola (gestão de produto da SOBA Catumbela) e com a Red Bull em Luanda, activações e eventos com a criação de cocktails com essas marcas. É sinal que o nosso produto tem qualidade e imagem dentro dos profissionais de reconhecimento nacional que representam estas duas grandes marcas que trabalham no sector das bebidas.
Nas casas que trabalham o conceito de Bar, os barmans são uma peça importante pois são um veículo fundamental para chegar ao consumidor final, nos darmos a conhecer e ganhar credibilida- de com a Caxaramba. Tanto se pode se fazem caipirinhas como mojitos, e ainda proporcionar uma ferramenta muito interes- sante aos barmans para criar diferentes cocktails. Também pode ser bebida como digestivo e com o passar dos anos com envelhecimento, sem dúvida que essa forma de ser consumida vai ser melhorada e potenciada. Para tal precisamos do tempo e da serenidade para esperar e deixar a natureza trabalhar.
Como caracterizam o sector no país, nesse período de fragilidade económica?
Eu diria que muito expectante e cauteloso. Desde as águas, gasosas, cervejas e obviamente as bebidas alcoólicas. De uma maneira geral todas elas baixa- ram drasticamente os seus números nos últimos anos. Nesta conjuntura, as pequenas e médias indústrias não estão com a capacidade de stockagem que tinham em anos anteriores e por sua vez as empresas de distribui- ção estão com grandes dificulda- des. Ainda assim, o que poderia ser uma política interessante de baixo stock, torna-se difícil para ambos os players na conjuntura actual em que vemos a economia de uma maneira geral bastante retraída. Se a ideia é criar riqueza dentro do país, estando as empresas nacionais com dificul- dade, é preciso comprar cada vez mais o produto nacional.
Quais são as inovações que a Caxaramba traz ao mercado?
No que é respeitante ao sector, colocamos a Caxaramba nos locais onde as grandes marcas importadas estão presentes: grandes restaurantes, eventos, moderna distribuição, grandes armazenistas. Damos ao angola- no a capacidade de provar uma bebida nacional de qualidade com preço competitivo. É hoje motivo de orgulho vermos a Caxaramba lado a lado nas prateleiras com as melhores marcas internacionais. Experi- mentem! Pode não ser ainda o melhor que já provaram (o gosto tem dessas coisas), mas de certeza que vão ficar orgulhosos! Temos um produto com uma versatilidade incrível e com um potencial de envelhecimento brutal. É impressionante provar mês a mês a evolução da Caxa- ramba dentro de uma barrica de carvalho. A isto chama-se fazer parte da história - estamos a criar a nossa identidade.
Com a marca Caxaramba produzimos mesmo: fermenta- mos, destilamos e envelhecemos a nossa bebida que é feita a partir da cana-de-açúcar.
A situação macroeconómica condiciona a vossa operação?
Temos de nos reinventar todos os dias e adaptarmo-nos a todas as adversidades diárias que surgem. Tentamos ser criativos e aproxi- marmo-nos ao consumidor final para explicar quem somos, o que somos, o que estamos a fazer e onde o fazemos. As nossas portas estão abertas para nos darmos a conhecer - temos de mostrar a nossa credibilidade e ganharmos a confiança do consumidor para o que é nacional. O desenvolvimen- to das parcerias com as grandes indústrias e autoridades nacio- nais também são de extrema importância.
Quanto foi investido nos últimos anos para fortalecer o projecto?
Mais do que os valores investidos (e que não são poucos) importa falar sim, da criação de postos de trabalho, do desenvolvimento da indústria nacional e local, bem como da formação de novos quadros nacionais.
A vossa matéria-prima é de onde?
Como já referido atrás, a matéria prima principal (cana-de-açúcar) é angolana - pena é ser ainda tão escassa e não estar circunscrita à nossa localização apenas.
Como está o sector alcoólico na distribuição?
Uma crise organizativa que se reflecte nas vendas. As pessoas estão com pouca capacidade de compra e as empresas importa- doras com dificuldades, mas também continuam muito cépticas relativamente ao nacional. É preciso lutar todos os dias contra esse preconceito. A indústria cervejeira é o exemplo de uma luta ganha relativamente ao importado, óptima qualidade a preço competitivo. As bebidas espirituosas e destiladas também estão a fazer por isso e muito bem.
Tal como os outros players, voçês também encontram dificuldades na importação e na aquisição de material?
Completamente! A Caxaramba é o reflexo disso mesmo. Fazer ao máximo com o que conseguimos encontrar no País. A marca nasce com a imposição de ter de dizer não à importação. A única coisa que importamos são as barricas de carvalho para estágio e a rolha que é de cortiça - tudo o resto é made in Angola.
Que parcerias vocês têm com empresas nacionais?
Temos como principais parceiros a Vidrul, Biocom, Angocap, SOIPA, MINAGRO (laboratórios) entre outros nos diversos sectores.
Que investimentos preten- dem fazer a médio prazo?
O que o mercado nos permitir! Somos uma empresa pequena sem endividamento bancário. Sofremos algumas dores de crescimento, é certo, mas não vamos dar um passo maior que aquele que o mercado nos indicar.
Vão criar mais empregos? Qual o número actual de trabalhadores?
Estamos a profissionalizar algumas áreas mais técnicas e de produção, mas não seria saudável fazer futurologia quanto a um tema de tamanha responsabilida: o investimento anual ronda os 100 milhões de Kwanzas, considerando todo o desenvolvi- mento de soluções internas de criação de meios para a produ- ção, criados e idealizados pelo nosso departamento técnico.
Qual é a vossa responsabilida- de social?
A formação de quadros nacio- nais, como já foi referido, é uma preocupação constante. À semelhança da valorização da bebida nacional, temos que valorizar da mesma forma a mão- de-obra nacional. Também tentamos passar uma mensagem positiva em torno da bebida. Sermos uma bebida de apoio a cocktails ajuda, pois faz com que o consumo seja feito de uma forma mais leve. Beber com moderação e responsabilidade sempre.
Por que motivo escolheram o lobito para desenvolverem o vosso projecto?
Sem dúvida nenhuma por toda a carga histórica associada à cultura da cana na província de Benguela em que os povos Ovimbundo já faziam troca directa de cana-de-açúcar por outros produtos. Também pela localização estratégica uma vez que estamos servidos tanto pela via-férrea para outras províncias e países, como pelo porto do Lobito e ainda pelo aeroporto da Catumbela. E porque viver em Angola no Lobito é uma bênção e ser lobitanga é verdadeiramente especial.
Que outros projectos estão em carteira?
Eestamos a preparar-nos para em 2019 acompanharmos a tendência do mercado e lançar um gin premium para o mercado com a marca 77
Um Artigo: MERCADO