Na sequência de um trabalho de investigação desenvolvido por técnicos da Fundação Kissama em colaboração com o grande herpetólogo recentemente falecido Bill Branch, a osga de Ansorge, uma das pérolas da herpetologia Angolana, foi agora redescoberta após mais de 110 anos de buscas infrutíferas que confundiram a comunidade científica. Neste artigo agora publicado são detalhados os passos que levaram à sua redescoberta e apresentam-se dados inéditos acerca da sua ecologia. Prosseguem agora estudos para compreender a história evolutiva desta rara e endémica osga, e suas relações com outras espécies de osgas primitivas presentes no hemisfério sul.
Resumo.—Boulenger (1907) descreveu a nova osga ‘Phyllodactylus’ ansorgii a partir de duas fêmeas oriundas de ‘Maconjo, Benguella, Angola,’ mas subsequentes revisões taxonómicas das osgas-de-dedos-defolha fez corrresponder a novos géneros as linhagens da África austral e desde então esta espécie tem sido tentativamente incluída em ‘Afrogecko.’ Durante mais de 110 anos a localidade típica permaneceu um mistério, e a osga tornou-se um ícone perdido da herpetologia Angolana. Buscas iniciais pela osga fcaram baralhadas devido a uma má interpretação da localidade típica ‘Maconjo,’ que é hoje evidente ter sido confundida com um topónimo que é uma localidade histórica bem conhecida.
Após a descoberta de novo material na região costeira de Benguela, a despistagem de documentos históricos e material cartográfco permitiu identifcar a área de colheita original do material típico. Levantamentos específcos nesta área resultaram na colheita de material topotípico e no registo de observações comportamentais e notas sobre a ecologia da espécie. O Afrogecko ansorgii é uma osga delgada, delicada e arborícola que habita pequenas árvores de porte arbustivo, particularmente espinheiras (Senegalia mellifera subsp. detinens), nas estepes áridas arbustivas da região costeira de Benguela. Todos os A. ansorgii foram encontrados nestas espinheiras ou na sua vizinhança, e onde a actividade de térmitas (Kalotermitidae) gerou talos ocos onde as osgas se abrigam. A localidade típica para o Phyllodactylus (= Afrogecko) ansorgii Boulenger 1907 e para o Mabuia (= Trachylepis) laevis Boulenger 1907, ambos descritos na mesma altura para ‘Maconjo, Benguella’, é desta forma restringida, e material topotípico da última espécie foi também obtido.
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