A viagem começa cedo, mas só depois de garantidas as devidas medidas de precaução. A informação que move a nossa equipa a se “aventurar” numa via que quase todos os automobilistas fogem é claramente aliciante: menos tempo de estrada entre Namibe e Benguela. Há quem diga que já se pode almoçar na capital duma província e jantar na outra.
A certeza é dada pelo empreiteiro, a construtora Planasul
Engenharia e Construção Lda., que desde Junho deste ano arregaçou as mangas a
fim de concluir este importante troço para o litoral do país.
Segundo o diretor da obra, Idrisse Hibraim, com
os trabalhos feitos até agora entre a Lucira e o rio Equimina, a viagem ficou
mais curta, passando de quatro horas e meia para duas horas e quarenta minutos.
Não fosse a paragem feita no período de estado de emergência imposto pela
pandemia da Covid-19, o grau de execução poderia ser maior, já que o prazo para
a conclusão da obra é de 24 meses.
"Se tudo correr bem, isto é, se não nos
faltar ‘oxigénio’, até Março de 2021, o tempo poderá reduzir para uma hora e
meia”, disse o representante do empreiteiro, referindo-se à disponibilização de
verbas por parte do dono da obra, o Executivo angolano. Os trabalhos estão
orçados em 36.943.276.395 kwanzas.
Viagem agridoce
De Moçâmedes até à comuna da Lucira são cerca de
206 quilómetros. Um trajecto que se faz em duas horas e meia ou pouco mais, se
tiver tempo para fazer fotografias e apreciar as montanhas áridas que
contrastam com as belas praias e os vales verdejantes do Bentiaba, Namangando e
Carojamba, onde se cultivam grandes quantidades de tomate, milho, banana,
mandioca e outras hortícolas.
Um breve desvio até ao interior da vila da
Lucira permite abastecer-se de bens indispensáveis, como água ou refrigerantes,
pão e outros alimentos, para consumir durante o resto da estrada que se
adivinha mais complicada, já que é a partir daí que termina o asfalto tal como
se conhece e começa a picada que durante todos esses anos desencorajava
comerciantes dos sectores das pescas e da agricultura, entre outros
automobilistas, a apostar nessa via.
O "calcanhar de Aquiles” está
precisamente nos 100 quilómetros que ligam a comuna da Lucira ao rio Equimina,
já perto da sede municipal do Dombe Grande, em Benguela. É aqui onde estão
concentrados todos os esforços do empreiteiro. No início deste troço, foi feita
uma intervenção que deixa boquiaberto quem, há uns meses, passou por lá: a
chamada Serrinha, uma cadeia de montanhas rochosas, foi "desmontada” com
recurso a centenas de toneladas de explosivos, facilitando em grande medida o
percurso.
Logo a seguir a Serrinha, começam a surgir os
primeiros sinais do que será o novo asfalto. Mais de 12 quilómetros de
impregnação e seis de aplicação de tapete betuminoso, com cinco centímetros de
espessura, levam os motoristas a respirar de alívio e acreditar em tempos melhores.
Perto dali, está instalado um centro de produção de brita e o estaleiro
utilizado pelo empreiteiro.
Vários sinais de trânsito foram colocados
provisoriamente em determinados pontos, ora impondo limites de velocidade, ora
alertando a aproximação de desvios que, se não observados, podem causar danos
avultados às viaturas e perigar a vida dos que viajam. A nossa reportagem
testemunhou isso mesmo num desses pontos, onde uma carrinha que transportava
várias caixas de tomate acabou imobilizada entre as rochas após ter excedido a
velocidade e perdido o controle, não obedecendo os sinais de alerta. Por sorte,
não houve vítimas humanas, mas os danos à viatura e à mercadoria são notáveis.
Ao longo da via homens e máquinas são avistados
em alguns locais a realizar trabalhos de desmatação, limpeza, terraplanagem e
execução de passagens hidráulicas. São, no total, dois trabalhadores
expatriados e 124 nacionais, a maioria dos quais contratados localmente
(Moçâmedes e Lucira), outros provenientes de províncias vizinhas.
Os últimos 35 quilómetros do troço
Lucira/Equimina são o verdadeiro tira-teimas do momento para quem se aventure
nessa deslocação entre Namibe e Benguela. Os trabalhos ainda não chegaram à
conhecida zona do Cimo, o ponto mais alto da região em relação ao nível do mar.
Aqui, a via apresenta-se intransponível para viaturas ligeiras ou até mesmo
para camiões e viaturas todo-terreno que não estejam com a manutenção em dia. O
"martírio” dura cerca de hora e meia, até alcançar o asfalto, na Equimina,
cerca de 60 quilómetros do Dombe Grande.
Trabalhos até à Estrada Nacional 280
Os trabalhos para a conclusão da Estrada
Nacional número 100 no troço rio Equimina/desvio da Lucira incluem a construção
de 16 pontes ao longo dos 100 quilómetros. Grande parte das mesmas está já em
execução, dando alento aos automobilistas. O ministro Manuel Tavares de Almeida
considerou, em Moçâmedes, que o referido troço é de grande importância, por
reduzir substancialmente a distância entre Namibe e Benguela, uma viagem que
hoje é feita preferencialmente através da cidade do Lubango, percorrendo mais
300 quilómetros.
"Com a conclusão desta obra vai-se
desenvolver a região da Lucira, que tem um grande potencial agrícola e
pesqueiro”, disse.
Entretanto, a empreitada consignada a Planasul
prevê igualmente a reabilitação do troço que vai da comuna do Bentiaba até ao
desvio da Estrada Nacional número 280 que liga as províncias do Namibe e Huíla,
com 160 quilómetros de extensão. Na sua visita de trabalho ao Namibe, o
ministro das Obras Públicas e Ordenamento do Território realçou também a
necessidade de se dar maior dinamismo à reabilitação deste troço, no âmbito do
plano de salvação das estradas, visando encontrar soluções técnicas para proteção das encostas da Serra da Leba. "Os trabalhos estão em curso, mas
precisamos de dar maior dinamismo para garantir mais segurança e conforto aos
utentes desta via”, referiu.
Fonte:Jornal de Angola