Produção de frutas ganha força em Benguela

Produção de frutas ganha força em Benguela

FOTO: CARLOS BENEDITO
FOTO: CARLOS BENEDITO

Catumbela - Apesar da crise económica e financeira em Angola, a província de Benguela começa a dar sinais de recuperação do sector agrícola, investindo em força na produção de frutas.

Desde o começo do ano, os agricultores apostam na produção de ananás, banana e outros produtos, um indicador de que, mesmo em período de recessão, o sector volta a "mexer-se".

Nos últimos anos, a produção frutícola é das principais actividades do agronegócio local, sobretudo nos solos férteis dos vales irrigados da Canjala, Hanha do Norte, Cavaco, Catumbela e Dombe Grande.A nova fase da agricultura já é notória nos três mil e 317 hectares de terras agricultáveis do perímetro agrário da Catumbela, que se estende até à zona Norte do município de Benguela.

A título de exemplo, mais de 106 fazendas apostam, nestas respectivas zonas, em variedades de frutas, com números que já chegam a impressionar, dado o curto tempo de produção.

O volume produzido de variedades de frutas chega a atingir mais de 200 mil toneladas/ano, graças à resiliência dos 106 produtores espalhados por dez municípios de Benguela, cuja actividade já ajudou a gerar renda para várias centenas de famílias camponesas locais.

Com uma safra anual de 120 mil toneladas, o ananás é, actualmente, uma das principais apostas nos municípios do Norte da província, nomeadamente Balombo e Bocoio.

A banana, considerada o "ouro verde" da região Centro de Benguela, atinge 52 mil toneladas/ano.

Já a manga ganha espaço no Sul (Dombe Grande), com 25 mil toneladas exportáveis.

Enquanto isso, a papaia e o maracujá, com 212 e 98 toneladas/ano, respectivamente, também figuram do mapa da fruticultura que vem ganhando corpo em Benguela, nos últimos meses.

Na base de toda esta "transformação" do sector, fortemente afectado pela crise petrolífera de 2014, está o Programa de Apoio à Produção, Diversificação das Exportações e Substituição das Importações (PRODESI), que, segundo as autoridades locais, está a criar um mercado cada vez mais "aliciante".

Conforme o agrónomo Gabriel Martinho, que lidera o Departamento Provincial da Agricultura, Benguela regista "novos tempos" na produção de frutas, com a implementação deste programa.

No seu entender, trata-se de um segmento fundamental para a economia local, sendo que, nos últimos meses, "o consumo interno aumentou de forma significativa" na província.

"Isso estimula as vendas e, ao mesmo tempo, a expansão das áreas de produção de Norte a Sul da província", expressa Gabriel Martinho, para quem a medida do Governo de reduzir a importação de bens produzidos em boas quantidades no país constitui a alavanca à produção interna de frutas.

A Fazenda Hermalina Lda., do empreendedor Henrique Miguel, 39 anos, por exemplo, já vive os efeitos desta nova era da produção de frutas na localidade de Benguela.  

Implantada em Maio deste ano, com a ajuda da esposa, Angelina Nguinamao, a fazenda tem 12 hectares de terras agricultáveis, e já gerou 45 empregos, entre camponeses, tractoristas, guardas e cozinheiras.

A maioria dos quadros foi recrutada nos bairros da Graça, Kawango e Tchipiandalo.

Até ao momento, sete hectares foram preenchidos com cultivo de melancia e dois com melão. O pepino, pimento e a beterraba completam o projecto do médio produtor.

Segundo Henrique Miguel, desde Maio último, a Fazenda Hermalina Lda. já colheu cerca de 25 toneladas de melancia, em apenas três hectares, enquanto a safra nos dois hectares de melão, estimada em cinco toneladas, continua em curso.

O empreendedor explica que, em apenas três meses, foram investidos mais de sete milhões de kwanzas do seu "próprio bolso", para dar corpo ao negócio da produção de frutas.

"Preferimos investir aqui", refere, sublinhando que, desde Maio, os investimentos foram aplicados no sistema de rega, na aquisição de adubos e combustíveis para o tractor desbravar as terras, assim como no pagamento dos salários dos trabalhadores.

Além do adubo composto NPK (12-24-12) e ureia, o novo produtor de frutas refere que está a introduzir fertilizantes orgânicos, a fim de colher frutas com melhor sabor.

Henrique prevê ampliar a área produtiva de 12 hectares para 34.

Para tal, já solicitou ao Gabinete de Aproveitamento Hidro-AgrícolaIf  dos Vales do Cavaco e da Catumbela mais 22 hectares para cultivar banana e milho.

250 hectares à espera de investidores na Catumbela

Apesar de a agricultura dar sinais de que voltou a "mexer-se" em Benguela, com a produção de frutas, 250 hectares, dos 3.317 hectares agricultáveis no perímetro da Catumbela, ainda esperam por investidores, para produzirem horto-frutícolas e cereais.

Conforme o agrónomo Raimundo Mussili, na gestão interina do Gabinete de Aproveitamento Hidro-Agrícola destes vales, nem todas as terras estão a ser exploradas, devido à proximidade do mar e a um fenómeno conhecido por "sombreamento".

A Catumbela possui mais de 32 hectares de mangueiras, o que, nalguns casos, atrofia o crescimento das culturas de cereais e hortícolas. Raimundo Mussili explica que as residências e unidades fabris construídas nas margens do Rio Catumbela estão na base da perda de 112 hectares neste perímetro.

Sublinha que o assoreamento, de 35 quilómetros de drenos principais, condiciona o aproveitamento de outros 120 hectares, sobretudo na comuna da Praia do Bebé.

Além das frutas, destaca que os seis mil e 320 camponeses, ao lado de 20 agricultores, apostam na diversificação de culturas, tendo como bandeira o milho em 520 hectares de terra, a banana em 193 hectares e a hortícolas ocupam 539 hectares.

Actualmente, os cerca de 2.500 hectares de área cultivada no vale do Cavaco - rio intermitente que atravessa a cidade de Benguela - oferecem muita diversidade de cultura, com destaque para a banana, conhecida na região desde o tempo colonial.

Dos 667 hectares de plantações de bananeiras que, no passado, a província controlava 13,5 porcento correspondiam ao total do vale do Cavaco, englobando 145 explorações das empresas existentes.

Carlos Pinheiro, 44 anos, abandonou o mundo da camionagem e a vocação da família - construção civil – para arrendar 17, 5 hectares de terra, numa fazenda antes subaproveitada, no vale do Cavaco.

Desde 2017, foram cerca de 30 milhões de kwanzas investidos na fazenda conhecida agora por BP – AGRO. Além dos nove mil pés de plantas de bananais híbridas importadas, comprou-se electro-bombas, geradores de energia a gasóleo, sistemas de rega gota-a-gota e vedou-se o perímetro.

"Começamos com 30 toneladas e passamos para 40, mas houve uma época em que tirei 50 toneladas", narra Carlos Pinheiro, que dispõe de uma área de 12,5 hectares de banana, devidamente arruadas, sendo 10 hectares já prontos para mais uma safra.

O empreendedor perspectiva colher 10 toneladas de banana, fruto de aproximadamente sete mil pés lançados à terra, com a ajuda de 23 trabalhadores.

"Há bananais que pegam ou não. Agora, estou à espera de mais análises de solos para poder saber bem qual vai ser o tipo de adubação para uma boa colheita", admite.

Entretanto, nem tudo no Cavaco é um mar de rosas.

Carlos queixa-se da falta de energia eléctrica e do encarecimento dos custos de produção, isto porque os geradores estão "caríssimos" para os agricultores, se bem que indispensáveis para que a rega por goteamento funcione, com electro-bombas.

Carlos Pinheiro afirma que o "casamento" com a produção de banana é para durar, já que, a seu ver, é a cultura mais adaptável e segura nas margens do rio Cavaco.

"Rico? Ninguém vai ficar à custa da banana, mas dá para ter a vida normal", finaliza.

Fonte: Angop




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