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Porque a província de Benguela cuia

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Porque a província de Benguela cuia

Porque a província de Benguela cuia

Os flamingos cor-de-rosa, uma das aves mais velhas e raras do mundo, eram um dos principais ícones da cidade do Lobito, conhecida como a Sala de Visitas de Angola. A espécie, porém, já não se avistava há vários anos no mangal do Lobito, antigo santuário de várias espécies de peixes e aves, onde as águas do mar se juntam às águas doces do rio Catumbela, por intermédio da vala do Kassai. 
Muitos já davam a causa como perdida e diziam que os flamingos jamais voltariam ao seu habitat de várias gerações. As causas eram várias. Desde a injecção desordenada de águas residuais e esgotos no mangal, ao despejo de lixo e de dejectos humanos pelas populações vizinhas.
Até que a administração municipal, incentivada pelo 1.º Congresso de Resíduos Sólidos de África, que decorreu na cidade em 2012, meteu mãos à obra. A pesca passou a ser proibida (usavam-se redes mosquiteiras que impregnavam as águas de químicos) e o lixo removido de forma regular. Graciete Sequeira, chefe da equipa que opera no mangal todos os domingos, confessou à EXAME que “chegou a recolher 80 pneus, que impediam o livre curso das águas e matavam os pequenos moluscos que servem de alimento aos flamingos”. Por fim, sensibilizou-se a população não só a recolher, como também a vender o lixo à administração municipal. A história teve um final feliz. Os flamingos não só regressaram ao mangal como, fruto da alimentação, recuperaram a apreciada tonalidade cor-de-rosa. Eles são um símbolo do renascimento do Lobito que, a 2 de Setembro de 2013, comemorou o centenário.
 
Do ponto de vista económico, a cidade progride a olhos vistos. Na Restinga, língua de areia de 4 quilómetros, dona de um dos mais belos patrimónios arquitectónicos, alguns dos quais ao melhor estilo art deco, ergueram-se novos hotéis  (caso do Tropicana, Restinga, Navegante e Turimar, ou o complexo TGV no Compão, que fazem concorrência ao clássico Terminus) e ofertas de entretenimento (que já não se limitam ao charme discreto do restaurante Zulu).
O comércio modernizou-se com a abertura de grandes superfícies de retalho e concessionárias de automóveis, cujos néones nocturnos emprestam à cidade um ambiente cosmopolita. O icónico porto de águas profundas do Lobito, o segundo maior do país, foi requalificado e ampliado. No ano passado, foram gastos 2 mil milhões de dólares na construção de um terminal de minérios, um outro de contentores e um porto seco a inaugurar nos próximos meses.
 
A célebre linha férrea de Benguela, cujas origens remontam a 1903 e percorre 1344 quilómetros até à fronteira leste com a República Democrática do Congo, foi restabelecida. O último troço, entre Luena e Luau, foi inaugurado no final do ano passado, permitindo que os países vizinhos, sem ligação ao mar, escoem os produtos. A Zâmbia, por exemplo, anunciou em Fevereiro a construção de uma ligação ferroviária a partir de Chingola (onde haverá um troço de ligação com as minas de Kansanshi, Lumwana e Kalumbila). Em Abril, será restabelecida a linha até Moçambique, o que permitirá revitalizar o Porto do Lobito como porta regional de entrada e saída de mercadorias.
 
Refinaria, metalomecânica e cimentos
 
O porto e a comboio também dão suporte à indústria pesada nacional. Na outra margem da Restinga, a Sonangol já iniciou os trabalhos da nova refinaria do Lobito que estará concluída em 2017 e tornará o país auto-suficiente de produtos refinados (a actual, de Luanda, só responde por 15% do consumo). A petrolífera já tem em operação no Lobito outras indústrias inovadoras de metalomecânica como a Sonamet (plataformas) e a Angoflex (umbilicais) para a exploração de petróleo em águas profundas. Outras unidades industriais de vulto são as cimenteiras (há três na província — Secil, Cimenforte e Palanca).
O porto e a linha férrea também possibilitaram a emergência de um novo segmento: o turismo de cruzeiro, que obrigou à construção de um cais para a atracagem deste tipo de navios. Este ano, prevê-se que dez cruzeiros (das operadoras Crystal Cruises, Hapag-Lloyd Cruises, Phoenix Reisen e Silversea Cruises) façam escala no Lobito. Um dos roteiros obrigatórios é o passeio de comboio nas carruagens-museu de 1930. Outra atracção é a pesca desportiva. O Lobito organiza o Big Game Fishing Tournament, onde se pescam marlins acima de 300 quilos, que integra as competições da federação internacional da modalidade (IGFA). O campeonato mundial será realizado no Lobito em Fevereiro ou Março de 2015.
 
Outro roteiro muito apreciado é o passeio fluvial pelas margens do rio Catumbela nas bimbas tradicionais — barcos de madeira leves feitos a partir de troncos — e onde se podem ver jacarés no habitat natural (diz-se, com humor, que o passeio pode ser vendido como actividade radical).
 
 
A Catumbela, a mais jovem cidade da província (ganhou o estatuto há dois anos) que durante o período colonial sediava uma das maiores fábricas de açúcar do mundo, tem beneficiado da rivalidade ancestral entre as vizinhas Lobito e Benguela. A via rápida de duas faixas (e muitos acidentes rodoviários) paralela ao comboio que liga essas duas cidades (onde pontifica essa maravilha de engenharia que é a Ponte 4 de Abril) inclui várias fábricas (cerâmicas, materiais de construção, fertilizantes), armazéns e áreas de retalho (sobretudo no alimentar, decoração e automóveis) e as distintivas arcadas chinesas que sinalizam mais obras de construção em curso. À saída do Lobito surge o imponente retail park e o pioneiro drive-through (Rosalina Burger). Antes de chegar a Benguela está o imponente Estádio de Ombaka, palco do CAN de 2010 (com o Hotel Ombaka Ritz nas imediações) e o novo aeroporto que aguarda a certificação do Inavic para receber voos internacionais (inaugurado em 2012 tem capacidade para mais de 2 milhões de passageiros).
 
Até há pouco tempo, as principais indústrias da Catumbela eram a fábrica de cerveja da Cuca (diz-se que o “fino” da cidade é o melhor do país) e uma unidade de engarrafamento da Coca-Cola. Hoje alberga, entre outras, um pólo industrial que já tem 20 empresas a operar e este ano deverá receber mais 15. A cidade teria potencial no turismo cultural se os monumentos, como o Forte de São Pedro, do século xvi, tivessem em melhor estado de conservação. A administradora municipal, Alice Pascoal, queixa-se, com razão, que as autoridades locais deveriam ter recursos para intervir na requalificação deste património, em vez de aguardar, em vão, pelo poder central. A oferta hoteleira é limitada, havendo a destacar o Lodge Colina das Estrelas, com 25 bungalows de luxo, piscina, spa e centro de convenções, que oferece uma vista magnífica sobre o vale, a cidade e o mar no horizonte. E existem dois novos hotéis em construção: Rio Mar e Kabuscorp.
 
Parque Chimalavera com gestão privada
 
Mas o grande pólo turístico da província é Benguela, a charmosa e tranquila cidade das Acácias Rubras. A segunda maior urbe do país, fundada em 1617, tem vindo a destacar-se na atracção conferências e eventos, nos quais pontifica o Hotel Mombaka, com um centro para 500 pessoas e diversas salas de reunião multifuncionais, ou a nova “coqueluche” da cidade, o Hotel Praia Morena, com 128 quartos, dois restaurantes, piscina e SPA. Outros hotéis abriram ou renovaram-se nos últimos dois anos, caso do Missinga, Luso ou Residencial Benguela no centro da cidade, onde hoje já existe oferta para todas as carteiras, incluindo pensões (Sistec e Imob) e aparthotel (Mil Cidades). Para quem prefere um alojamento junto à praia, a aposta mais recente é o acolhedor Hotel Duas Faces, que prima pelo design moderno, localizado em plena Baía Azul.
 
Outros atractivos naturais estão a norte do Lobito, tais como a área do Egipto Praia, que tem uma pequena praia na foz de um rio, guardada por uma antiga fortaleza colonial (é uma das candidatas da província às 7 Maravilhas de Angola, a par da Caotinha), ou o vale do rio Cubal, cercado por montanhas e palmeiras, em cujo município estão as Quedas do Lomaum e as suas famosas águas quentes. Outro destino termal é o Balombo, no interior da província,
 
Na economia, Benguela tem excelentes condições para a agricultura, com cerca de 1 milhão de hectares de terra arável (as grandes fazendas estão localizadas nas margens do rio Cavaco) onde os principais produtos cultivados são a banana, milho, tomate, ananás e mandioca. A pesca é outra actividade com grande legado histórico (a província contribui com quase metade da produção nacional), beneficiando da famosa corrente fria, rica em nutrientes, que flui de sul para norte. Recentemente, voltou a despontar a promissora fileira do sal.
 
Mas o grande potencial da província é o turismo. O centro de Benguela tem vários pontos de interesse histórico, caso da sé e as magníficas igrejas e edifícios coloniais, ou o Museu de Arqueologia (antigo entreposto de escravos) e o original edifício de madeira e ferro (Cabo Submarino), restaurado em 2011. Existe uma vasta oferta de restaurantes e diversão nocturna junto à lendária (mas infelizmente degradada) Praia Morena, famosa pelos passeios a pé ao longo da marginal. Depois há as praias, das mais belas do país, de águas verdes e cristalinas. As mais populares (todas a sul de Benguela) são a Baía Azul e Baía Farta, ou a Caota e Caotinha (ideais para o mergulho e onde se avistam golfinhos e baleias).
 Os mais aventureiros têm, no entanto, à sua disposição uma vasta extensão de costa inexplorada, incluindo a Praia da Lua e a Baía dos Elefantes, onde está prestes a nascer um ambicioso projecto turístico (veja caixa “Três megaprojectos turísticos”). Mais a sul, com acesso através da estrada que passa pelas míticas terras do Dombe Grande (onde subsistem as ruínas da fábrica de açúcar e no topo da qual há uma vista sobre o vale de cortar a respiração), chega-se à Baía da Mbinga, antiga aldeia piscatória que, em breve, albergará um projecto turístico que prestará tributo a essa tradição. A linha costeira em torno da baía, protegida pelas falésias, está repleta de enseadas paradisíacas de beleza e encanto quase irreais.
 
Há ainda um outro megaprojecto, cujas obras estavam paradas e que, segundo notícias recentes, será relançado. O Blue Ocean, ocupa uma área de 1350 hectares, junto à zona balnear do centro turístico da Baía Azul, onde acolherá 20 mil habitantes. Durante uma visita ao local, liderada pelo governador da província, Isaac dos Anjos, foi revelado que os lotes de terreno vão começar a ser vendidos a partir deste mês, no valor inicial de 1 milhão de kwanzas, podendo os interessados comparticipar no esforço de infra-estruturação.
 
No workshop dedicado ao potencial turístico da província também se abordaram os temas do urbanismo e ambiente. Fernando Ekumba Baptista, director provincial com tais pelouros, realçou a importância dos PDM (plano director municipal) que já estão em fase de elaboração. E falou do esforço que ainda é necessário fazer em torno da requalificação do rio Catumbela (turismo fluvial) e Egipto Praia (ecoturismo e património).  
Acrescentou que o grande projecto em curso é a limpeza do rio Cavaco e a requalificação da Praia Morena e da Baía de Santo António, que perderam qualidade balnear.
 
Houve ainda tempo para que Amaro Ricardo, administrador do Lobito, falasse sobre o que está a ser feito para minimizar o impacto da nova refinaria, caso da criação de uma escola ambiental e de laboratórios de análise da água e solo ou da preocupação que os ventos não se dirijam para as áreas habitacionais. Falou também dos estudos de impacto ambiental a que as cimenteiras foram obrigadas. E das intervenções técnicas que beneficiarão a orla costeira e mangais (criação de zonas-tampão, dragagens de areia, calçadas pedestres e ciclovias).
 
José Manuel Bandeira, da Universidade Katiavala Bwila, divulgou os dados de um estudo sobre turismo sustentável realizado pela instituição, que incidiram sobre as praias do litoral norte da província, desde a foz do rio Tapado, até a enseada do Binje, passando pelo Egito Praia, Kuhula, Praia Grande e Chiul. Por todas estas razões, como confessou à EXAME o benguelense e sportinguista fervoroso, Jorge Gabriel, presidente da Associação de Hotelaria e Turismo de Benguela (dono, entre outros, do famoso restaurante Escondinho), “quem vive em Luanda até pode ganhar mais dinheiro, mas nesta província temos muito melhor qualidade de vida”. Resta dizer mais o quê? Benguela cuia… não tem como! 
 
 
Por: Jaime Fidalgo (com Cândido Carneiro)
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